Thursday, August 31, 2006

A Retórica Aristotélica

Na vida em sociedade, o homem é levado a escolher, convencer, acusar, defender-se e decidir, e a retórica, definida por Aristóteles como “a faculdade de descobrir em todo assunto o que é capaz de persuadir”, é a mais antiga disciplina relacionada à linguagem e à ciência do discurso. Remonta ao século V a.C e era entendida, originariamente, como arte da eloqüência, da persuasão, e portanto caracterizada pelo seu aspecto pragmático. O gênero só se desenvolveu plenamente após a consolidação da democracia ateniense. Todos os cidadãos de Atenas participavam diretamente nas assembléias populares, que possuíam funções legislativas, executivas e judiciárias.

A educação grega consistia fundamentalmente de três coisas: ginástica, música e retórica. Professores de Retórica iam de cidade em cidade procurando os jovens membros da classe dominante para lhes ensinar esta arte, com a qual poderiam ingressar na carreira política. Um destes professores foi Sócrates, considerado pai da Filosofia. Outro foi Platão, que considerou apenas o caráter manipulatório do gênero, não enxergando nele nenhum ponto positivo.
Aristóteles de Estagira tinha 18 anos quando entrou para a Academia Platônica. Logo se destacou como um dos melhores alunos e foi incumbido de dar uma parte das aulas, o curso de Retórica. Ele logo dominou esta ciência, muito disseminada na época, e foi um dos primeiros a fazer dela uma especulação teórica.
Até então, a retórica até era apenas transmitida como técnica, como prática, e alguns levavam a vida inteira para dominar esta arte, que era a chave das ambições políticas. Aristóteles dominou-a prontamente e começou a especular teoricamente.
"Por que o argumento persuasivo é persuasivo?"
"Por que um argumento logicamente fraco ou absurdo convence as pessoas, e outro que é razoável não as convence?"
Assim como Sócrates, Aristóteles percebeu que os oradores às vezes conseguiam convencer as pessoas de coisas perfeitamente absurdas. Sócrates limitou-se a demonstrar que essas idéias eram absurdas, por mais persuasivas que parecessem. Aristóteles passou a investigar as causas dessa capacidade de persuasão, formulando a ciência da Retórica como uma verdadeira Psicologia da Comunicação. Ele não apenas sabia produzir argumentos persuasivos, mas também conhecia os princípios teóricos em que se baseavam os adversários: assim, aos vinte e poucos anos ele tornou-se uma espécie de terror dos demais retóricos, já que desmontava todos os argumentos deles com a maior facilidade.
Em seu livro Ars Retorica, ainda hoje lido e utilizado largamente, Aristóteles classificou a retórica em gêneros, de acordo com o objetivo a que se propõe: pode ser deliberativa, se o auditório tiver que julgar uma ação futura (utilizada dentro da política); judicial, se o auditório tiver que julgar uma ação passada (utilizada nos tribunais); e epidéitica, também dita ‘de exibição’, se o auditório não tiver que julgar ações passadas nem futuras (utilizada em eventos sociais, normalmente fazendo o elogio de alguém ou de algo, ainda que isso seja um mero pretexto para o orador brilhar).

Para Aristóteles, o discurso é composto necessariamente de no mínimo quatro elementos: exórdio, enunciação da tese, prova e epílogo. O exórdio e o epílogo eram decorados, e as demais partes (enunciação da tese e prova) eram improvisadas.

Para criar um meio de prova, usava-se formas artísticas ou não-artísticas. Meios de prova não-artísticos são as provas em sentido estrito, as evidências concretas, tais como testemunhas ou documentos. Meios de prova artísticos são os argumentos inventados pelo orador, e podem ser de três tipos: aqueles derivados do caráter do próprio orador, que empresta sua credibilidade à causa (ethos); aqueles em que o orador procura lidar com as emoções do auditório (pathos); e aqueles derivados da razão (logos).
Os argumentos lógicos se apresentam sob duas formas: induções, ou uso de exemplos; e deduções, chamadas em retórica de "entimemas". O entimema, ou silogismo retórico, é aquele tipo de silogismo em que as premissas não se referem àquilo que é certo, mas àquilo que é provável, e tem importância fundamental para a retórica, já que na maioria dos casos em que estão em jogo assuntos humanos nem sempre se pode basear a argumentação apenas naquilo que é verdadeiro, mas apenas no que é verossímil.

Aristóteles é visto na história da filosofia como o filósofo que estabeleceu o tipo de racionalidade praticada no Ocidente. Dentro da obra aristotélica, devemos destacar a importância atribuída por ele ao conhecimento do auditório e seu pioneirismo: foi o primeiro a reconhecer claramente que a retórica, em si mesma, é moralmente neutra, podendo ser usada para o bem ou para o mal.

Aproximando Aristóteles da Publicidade

A retórica é, no dizer de Aristóteles, a capacidade de descobrir o que é atrativo para seu público. Parte, assim, de um inquérito, de uma investigação sobre os artifícios da articulação e ordenação do discurso (idéia e palavra) pelos quais os falantes/emissores de outras linguagens, estruturam e reforçam as mensagens que emitem.

A publicidade expressa-se pelo apelo ético, que é o do discurso sobre os atributos, capacidades e comportamentos, reais ou supostos, do seu objeto (bens de consumo), ou seja, uma tripla especulação sobre o ethos das mercadorias e o ethos dos emissores da mensagem, (estes, desdobrados na dupla figura do anunciador -que figura na peça publicitária - e do anunciante que a encomendou), e baseada na performance do segundo e na credibilidade do terceiro (ETHOS).

O seu compromisso (velado) com a esfera do social não a leva a confundir-se com a propaganda, que se enquadra num apelo retórico distinto: o patético, do sentimento/sofrimento, que invoca e incute emoções fortemente positivas e negativas na sua audiência (PATHOS).

Estes dois
apelos contrastam com um terceiro, o apelo lógico, o do raciocínio e da argumentação (LOGOS), que intenta estabelecer uma relação ‘necessária’ entre postulados, forçando conclusões a partir de premissas.

Por definição, a publicidade não argumenta, seduz. Não apaixona, atrai e deleita. E daqui decorre um critério para a pureza do(s) discurso(s) publicitário(s): o predomínio da valorização qualitativa da mercadoria em detrimento das apreciações passionais ou lógicas, ainda que não se excluam completamente o recurso mitigado a estímulos emocionais e a presença ocasional de entimemas e de paralogismos.

Definido o seu apelo retórico, resta a questão do gênero retórico a que a publicidade pertence, e dos lugares próprios deste. Dos três gêneros retóricos (o judicial, o deliberativo e o epidíctico), o discurso publicitário pertence claramente ao último:

- De acordo com a distinção aristotélica dos públicos, o destinatário não toma parte componente no discurso, limitando-se a assistir ao espetáculo da mensagem;

- Está em jogo exclusivamente o talento e a capacidade do orador, e não sua vida (característica do gênero deliberativo) ou de terceiros (gênero judicial);

- Não existem
contraditores, estando o seu discurso desse modo privado dos elementos dramáticos próprios dos outros dois gêneros, ou seja, não se constitui enquanto argumentação;

- O seu requinte, esmero e superior beleza são possíveis precisamente por ser um discurso preparado com antecedência pelo seu autor, e não nascido do imediatismo do debate e confronto que condicionam os outros dois gêneros;
- O seu lugar próprio são as qualidades das coisas e as suas características (qualidades das pessoas ou cidades, na maioria da epidíctica antiga; e dos bens de consumo, na publicidade), enquanto as idéias constituem a matéria prima do gênero deliberativo, e os fatos o objeto do judicial;

- O seu tempo próprio é o presente, ocupando-se o judicial do passado e o deliberativo do futuro.

Assim, a publicidade é fundamentalmente um discurso epidíctico, no sentido de que mostra, aponta, anuncia, exibe - torna público. Dentro deste gênero, costuma centrar-se no apelo ético que incide sobre as características e o comportamento (ethos) de algo (produto ou serviços). Não tem por função informar o público nem tampouco comovê-lo ou instruí-lo. Pretende, isso sim, exibir o seu objecto, o que levou os retóricos gregos a considerar este tipo de aplicação da retórica como ostentatória e gratuita, apesar de reconhecerem a finalidade prática desses elogios.

Aristóteles listou os “lugares comuns” do discurso epidítico, e que a publicidade ainda hoje utiliza. Eles incluem-se nos recursos da ampliação (“auxese”) e podem ser divididos em:

- Origens (a marca e a sua tradição)
- Faz muito...
- É o único que faz...
- Foi o primeiro a fazer...
- Está entre os poucos que fazem...
- É o que faz mais...
- Não se esperava que fizesse tanto...
- Estabeleceu um padrão de comportamento...
- Recebeu um prêmio.

Quando não há motivo bastante no próprio produto para o seu elogio, ele normalmente é comparado com as carências e defeitos da concorrência.

Um anúncio pode fugir a essa regra, no sentido de usar um apelo e gênero distintos, empregando um argumento lógico (“eficácia comprovada”, “mais 20% de quantidade pelo mesmo preço” ou “melhores resultados em testes face à concorrência”), argumentos estes que seriam fatos objetivos, pertencentes ao domínio do gênero judicial, que se fundamenta em “provas”, e não ligados a um apelo ético.

Alguns produtos não se utilizam do gênero epidítico nem do judicial: ao invés de empregar argumentos lógicos, apelam para a emoção do público. Assim, um amaciante de roupas pode fazer menção às Ilhas Gregas, estabelecendo uma essência não-argumentativa da publicidade e transformando-a num espaço da conotação orientada para o escapismo e a fuga, associando-a a sugestões oníricas de viagem, luz, calor, todas inapropriadas para vender um amaciante do ponto de vista estritamente lógico.

Quanto mais falível é um produto, menos o apelo ético é usado (até porque a performance da mercadoria poderia não corresponder de todo às promessas do anúncio), e mais as persuasões lógica e paralógica são tentadas. Um produto duvidoso aposta na informação, na explicitação, no anúncio não-publicitário; um produto já estabelecido pode e deve limitar-se à arte e ao show.

O problema da eficácia da publicidade é uma questão ociosa para a retórica, que estuda o seu fascínio e não as suas consequências, comerciais ou mentais, desejadas ou não, previstas ou imprevistas. Há receitas seguras para bons anúncios, mas não há receitas infalíveis para boas vendas.

Correntes teóricas da Comunicação
(Primeira Parte)


Aristóteles (Grécia Antiga):
Definiu o estudo da retórica como a procura de todos os meios possíveis de persuasão.
Discutiu outros possíveis objetivos de quem fala, mas fixou como meta principal a tentativa de levar outras pessoas a adotarem o ponto de vista de quem fala. Ele estabeleceu três elementos necessários à comunicação: quem fala, o discurso e a audiência. Esta forma de ver a comunicação continuou aceita até a última parte do séc. XVIII, e o modelo de comunicação proposto pelo filósofo serviu de base à maior parte dos que surgiram depois.


Escola de Chicago

Escola de pensamento surgida nos Estados Unidos, na década de 1910. Pragmática, estava ligada ao projeto de construção de uma ciência social sobre bases empíricas (práticas, experimentais). Seu enfoque sociológico dos modos de comunicação na organização da comunidade se harmonizava com uma reflexão sobre o papel da ferramenta cientifica na resolução dos grandes desequilíbrios sociais. Sua supremacia durou até as vésperas da Segunda Guerra Mundial. Figuras de destaque: Robert Ezra Park, John Dewey, George H. Mead, Charles Peirce.


‘Mass Communication Research’ (Sociologia Funcionalista da Mídia)
Corrente teórica americana, cujo esquema de análise funcional deslocava a pesquisa para medidas quantitativas, mais aptas a responder às exigências dos administradores das mídias. Enxergava os meios de comunicação como meros instrumentos , “não mais moral nem imoral que a manivela da bomba d’água”, e consagrou a representação da onipotência da mídia na circulação eficaz dos símbolos e como mecanismos decisivos da regulação da sociedade. A audiência é vista como um alvo amorfo que obedece cegamente ao esquema estímulo-resposta. Figuras de destaque: Lazarsfeld, Merton, Wright, Lasswell.

Tuesday, August 01, 2006

PRIMEIRO EXERCÍCIO
Escrever um texto sobre a evolução da comunicação através da história e do impacto das novas tecnologias na vida das pessoas, a partir dos dois trechos de música abaixo. Data da entrega: 07 de agosto, em sala ou por email.
1. Parabolicamará (Gilberto Gil)
Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena parabolicamará
(...)
Antes longe era distante
Perto, só quando dava
Quando muito, ali defronte
E o horizonte acabava
Hoje lá trás dos montes é dend' casa, camará
2. Légua Tirana (Luiz Gonzaga)
Oh, que estrada mais comprida
Oh, que légua tão tirana
Ai, se eu tivesse asas
Inda hoje eu via Ana...

Monday, July 31, 2006

TEXTOS USADOS EM SALA

Durante nossa primeira aula, discutimos os textos abaixo, que tratam da importância de se estudar Teoria da Comunicação na universidade. O último complementa os dois anteriores, e merece ser lido, pois é o mais completo (e raivoso!).

Nilson Lage - texto 1
Jussara Rezende e Simone Swartz - texto 2
Nilson Lage - texto 3

Wednesday, July 26, 2006

Sejam bem vindos! Este espaço foi criado para auxiliar os alunos da disciplina Teoria da Comunicação I, do curso de Publicidade e Propaganda da Faculdade do Vale do Rio Ipojuca (Favip). Deverá servir como uma extensão da sala de aula e mais um meio através do qual poderemos trocar idéias e nos integrarmos.
Aqui, colocarei o material apresentado em sala, como exercícios, links e referências, lembrando que a maior parte dos textos que usaremos está disponível na xerox e/ou na biblioteca da faculdade.
Nosso email coletivo será comunicacaoteoria@yahoo.com.br (a senha, forneço pessoalmente) e, no porta-arquivos do yahoo, vocês poderão fazer o download de alguns textos que serão utilizados durante a disciplina.
Qualquer dúvida, é só entrar em contato!
Que a gente possa construir um bom trabalho juntos, ao longo deste semestre.
Abração! Mariana